Seja bem-vindo(a) ao espaço que pretende ser, simultaneamente, depósito de memória e elemento catalisador de união entre os Sampedrenses.
Ao contrário do que o nome possa fazer transparecer, não se trata de uma associação que exija vinculo por quotas, mas sim, de um grupo de sampedrenses que pretendem, com a sua união, ver nascer uma tradição que querem fomentada e implementada por todos.

Viva SÃO PEDRO DE RIO SECO


Novamente no ar. Desculpem a demora. Grato pela fidelidade.

26 de junho de 2010

Lembro-me … Ah sim como me lembro!

Hoje, sábado 26/06/2010, acordei lentamente, sim porque nos dias normais de trabalho é uma lufa-lufa, um corrupio… Após o despertador nos chamar à razão, é um levantar a correr, visita ao WC para as ablações matinais, uma chuveirada e sempre em passo de corrida ir ao quarto vestir a roupa que previamente fora seleccionada para o dia, beber um copo de água, dado que de manhã tão cedo (seis da manhã) não encontro maneira do meu organismo receber e aceitar qualquer tipo de alimentos sólidos e em passo acelerado dirigir-me à estação de comboios, apanhar o dito que me leva todos os dias para Lisboa, para o trabalho diário.

Como sempre lá estou eu a desviar-me do que é essencial. Retomando o fio à meada … um pensamento me iluminou a face e o dia. Fim-de-semana, o despertador silencioso, o acordar tinha sido um reflexo da rotina diária, mas que exigia uma vingança, prontamente realizada; mais uma volta para o outro lado e eis-me novamente adormecido. Acordei um pouco mais tarde e um cheiro me trouxe à memória recordações várias que, chegando às catadupas, me impediram de as situar no tempo e no espaço. Todavia, esquecendo esse princípio básico, aqui vos trago algumas delas;

Lembro-me da casa do Tio Arménio Caldeira (descanse em paz), na quinta dos Bentos/Guarda, logo ali bem perto do matadouro. Naquele tempo as entranhas e demais excessos não aproveitados das carcaças, eram deixados num espaço a céu aberto o que, como será de adivinhar, trazia visitantes tão conhecidos e indesejados, como os ratos que, naquele lugar e devido à abundância de alimentos, se tornavam maiores que gatos.
Descíamos a pequena ladeira, eu e o meu primo Luís e para o que nos haveria de dar. Uma carcaça havia sido deitada fora e estava praticamente coberta de roedores. Mais depressa feito do que pensado e eis que um pedra, já de uma respeitável dimensão, é arremessada para o meio daqueles corpos em frenesim, na alimentação. Um guincho agudo é ouvido e tal como se de um exército se tratara, uma boa meia dúzia daqueles animais iniciam uma perseguição aos dois intrusos (sim, adivinhou, a mim e ao meu primo). Reacção rápida, motivada pelo medo e eis-nos a dar com os calcanhares no cú que a situação assim o exigia. Felizmente que a perseguição foi de curta duração mas não ganhámos para o susto.

Lembro-me do Mini (vermelho), que era propriedade do meu primo Carlos Caldeira e do modo como o arrumávamos aquando de uma eventual ida ao cinema e o estacionamento resultava exíguo. Era sair dele, fechar as portas convenientemente e depois, a pulso, colocá-lo no respectivo lugar. Como me lembro.

Lembro-me do Manuel e da Paula. Lembro-me da minha tia Maria que não fazia distinções na hora de dar o seu amor ou carinhos, não importando se era a um dos filhos ou a mim, seu sobrinho. Lembro-me…

Lembro-me de irmos ceifar a erva para as vacas e no restolho deixarmos um ramo seco que serviria como porto de abrigo aos caracóis que por ali “enxameavam” e que ao mesmo tempo lhes era uma armadilha. Belas petiscadas.

Lembro-me do “pele e osso”, companheiro de brincadeiras, assim chamado por razões óbvias. Lembro-me…

Lembro-me do Liceu da Guarda e dos maravilhosos colegas e amigos que ali tive. Lembro-me do Bico, do Manel, do Victor, da Lena, do Speedy, da Lurdes, filha do Saraiva. Lembro-me….

Lembro-me dos meu parceiros de brincadeiras e já em São Pedro, do Adalberto, do meu quinto, o Zé Casimiro, do Manel e do Micas Sardinha, do Zé Manel Teixeira, do Henrique, do Tó do Marquês, e de … lembro-me…

Lembro-me do Zé Ferreira e do Zé Alberto (Betinho) e das tropelias que fazíamos e que, muitas delas, devido à sua natureza, eram prontamente repreendidas, se bem que de uma maneira carinhosa, pelo malogrado Zé Vitorino. Sempre pronto a ajudar o vizinho em detrimento do seu próprio trabalho do campo. Das pingas bebidas pelo “pitulim” a velha jarra de plástico com que nos era servido o vinho que por sinal e “gozo” de todos sabíamos ser do ano anterior pela quantidade de “flor” que tinha a boiar. Da simpatia que espalhava e a educação que a todos mostrava. Lembro-me…

Lembro-me do saudoso Manel Pigas, forte e ágil como um gato e verdadeiro galã entre a classe feminina. Lembro-me do Tó Pigas. Lembro-me da Clara, da Cândida e do Zé Francisco. Lembro-me…

Lembro-me do Alcino e do Acácio. Este último apesar de ter uns anitos a mais do que eu, muitas das vezes me escolheu e deu o privilégio de o acompanhar a passear à Guarda no seu BMW cor de laranja. Lembro-me de ter sido ele que nos deu, a mim e ao meu irmão umas navalhas de prata com o símbolo do clube do seu coração, o Sporting e lembro-me do reverso da medalha. Uma oferta pelo meu tio Arménio de uns emblemas de ouro do Benfica. Lembro-me…

Lembro-me da tasca do também e infelizmente já falecido “Ti Manel Taberneiro” e de sua saudosa esposa, que carinhosamente me permitia que tratasse por, madrinha Celeste. Lembro-me…

Lembro-me depois desse espaço ser gerido pela Teresinha e pela Lucinda. Ambas queridas e respeitadas por toda a juventude e a quem nunca faltou uma palavra de carinho ou de ânimo a quem dela precisasse. Quantas vezes e já fora de horas nos foram aturar, com petiscos e bebidas. Lembro-me…

Lembro-me, ali perto, e por debaixo das agora escadas da casa do Vítor Ferreira encontrar diariamente a trabalhar o saudoso Alfeu. Sempre de volta dos fios, solas, graxa e cola. Lembro-me…

Lembro-me do Toninho Ferreiro e daquele cheiro a carvão e ferro incandescentes e do constante bater do ferro nas ferraduras e bigorna. Lembro-me…

Lembro-me do meu saudoso Tio Armindo e da sua figura aparentemente franzina mas que quando necessário mostrava um pulso e mão fortes, totalmente calejadas pelo duro trabalho do campo. Lembro-me de minha Tia Mariana, do Manel, do Ismael, do Zé César …. Lembro-me…

Um som mais forte trouxe-me de volta. A campainha da porta acordou-me e fez desvanecer o sonho, evidentemente não terminado, porque me lembro de muito mais… ah sim como me lembro.

Citrus Sénior

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